Após alguns minutos de ausência, Eleanor entrou na sala, e, espalhafatosamente, exclamou:
-Aqui está ele! Entra, entra, querido...
Elelanor afastou-se e revelou um jovem, com um expressão jocosa, que sorria para a mulher.
-Querida, este é o meu outro neto! Cumprimenta a menina, meu mal-educado!
O rapaz aproximou-se da cadeira onde estava sentada Helene e inclinou-se.
-É um prazer conhecer uma dama tão bela como aquela que se senta diante de mim!
Posso saber o seu nome, menina?
-Helene. Helene DeLover. Encantada! - disse Helene, corando. Não estava habituada a tais elogios, e tinha de concordar que o moço era muito bem parecido. E...o seu?
-Ah! Peço desculpa, foi uma indelicadeza de minha parte! Leonardo Santorini. Tem um nome encantador, bela jovem...posso saber as suas origens?
-Meu pai era francês e minha mãe italiana.
-É um prazer saber que temos algo em comum...! Não está um pouco abafado aqui? -continuou, sem pausas, Leonardo. Proponho-lhe um passeio...Que me diz?
-Aceito, muito obrigado. E - acrescentou Helene, virando-se para Robert e Eleanor - prometo vir visitar este amável casal quantas vezes me for possível, já que me acolheram tão bem...Visitem-me em minha casa, e serão tão bem vindos quanto eu fui aqui - disse Helene com um sorriso. Vivo, agora, em casa da minha querida e falecida tia, Maria Fiori. Deus a guarde - murmurou por fim.
-Vamos então, Helene?
-Sim.
O velho guiou Helene até uma rua paralela àquela onde estavam. Retirou um molho de chaves da algibeira e meteu uma delas na fechadura ferrugenta. Tentou abrir a porta, abanando e pontapeando, mas nao abriu.
-Sabe, menina, nao somos propriamente abastados, e o dinheiro escasseia...A porta já nao é tao eficiente como costumava ser - disse o velho, com um sorriso afectuoso. Aí, resolveu bater à porta, e após uns tempos de espera, a porta abriu-se e revelou uma velha de rosto áspero mas bondoso.
-Bom dia de novo, minha querida Eleanor. Lembras-te de Helene, a filha do senhor Antoine DeLover. Com certeza nao te esqueceste dela - disse o velho com um sorriso. Helene, esta é a minha mulher, Eleanor.
-Muito prazer, minha senhora. Encantada!
-Ah! Como me lembro de ti, Helene! Anda cá...-exclamou Eleanor, dirigindo-se à rapariga de braços abertos. Já nos conhecemos, minha querida, portanto nao sao precisos grandes formalidades. É claro que provavelmente nao te recordas...
Helene estava muito baralhada, mas sorria, pois nao queria parecer mal diante de alguém que, tao amavelmente, a acolhera. Nao se recordava do casal, nem desconfiava de onde os conhecia. O velho afirmava ter conhecido os pais, mas ela nao sabia de onde. Quase que adivinhando os pensamentos da rapariga, o velho sorriu.
-Deves-te interrogar de onde nos conhecemos, nao é, minha filha? Senta-te! - e apontou para uma cadeira forrada. Helene sentou-se e, momentos depois, Eleanor trouxe chá e biscoitos.
-Agora, esclarecerei tudo, minha filha. O meu nome é Robert Santorini e esta é a minha mulher, Eleanor Santorini. Temos uma filha, mais ou menos da tua idade. Diz-me, tens...
-17, senhor.
-17! Como o tempo corre depressa...Onde é que eu ia? Ah! sim..temos uma filha que ronda a tua idade. Chama-se Angel e tem 16 anos. Ofereceram-lhe um emprego em França...e ela teve de partir...- concluiu Mr.Santorini, tristemente. Ela é muito bela, tal como tu, mas com largas diferenças...Bem, onde é que eu ia? Ah! sim...queres provavelmente saber de onde te conhecemos, a ti e aos teus pais, nao é?
Helene acenou afirmativamente com a cabeça e agradeceu o elogio ao velho, tao simpático, mas tao esquecido. Fez-lhe sinal para continuar e ele avançou.
-Bem, quando os teus pais eram novos, logo depois de se casarem, vieram para aqui viver. Eles, com a enorme fortuna de seu pai, mandaram construir a mansao DeLover, que ainda permanece de pé, como talvez sabe...
-Sim, sei. Já a visitei várias vezes, mas, infelizmente, traz-me escassas memórias...e as que traz sao um pouco infelizes..
-Bem, sim, ainda bem...local magnífico! Como já deve ter reparado, a mansao possui um largo jardim a toda a volta, e era necessário alguém que cuidasse dele, alguém com aptidoes para o fazer. Entao, o seu pai procurava alguém que o fizesse. Eu e a minha esposa apresentámo-nos e fomos contratados: eu como jardineiro e Eleanor como cozinheira. Ficámos lá muito tempo, mesmo depois de tu nasceres.
-Era uma menina adorável! - acrescentou Eleanor. Mas, infelizmente, o negócio dos seus pais faliu, graças ao traidor que ainda respira, esse Charles Cole! Nao sei se a menina conhece, mas...
-Sim, Eleanor, ela conhece bem. Trabalha para ele, ve lá tu!
-Nao pode ser! Nao pode ser verdade... Deus nao fez justiça, o que é pena, pois tratavam-se de pessoas boas...
-Bem...onde é que eu ia? - interrogou-se Mr. Robert. Ah! sim...eles perderam o negócio, a fortuna e, por consequente, abandonaram a casa que tanto lhes deu trabalho. Venderam-na, mas como era demasiado personalizada, quem a comprou apenas comprou o terreno. Tinham ideias de a demolir, o que teria sido uma pena, e, atrevo-me a dizer, uma vergonha! Sim, porque uma obra de construçao como aquela...seria pecado mandar abaixo! Oh bem...sem a casa, nao necessitavam mais de jardineiro ou cozinheira, e nós fomos dispensados, para grande tristeza de todos...dava-me gosto trabalhar para um homem tao honrado como aquele!..
Naquele momento, Helene notou um certo olhar de reprovaçao por parte de Eleanor, para com o marido. O que será que queria dizer? Mas os seus pensamentos foram interrompidos com uma exclamaçao de parte da mulher.
-Ah! Robert, nós aqui a tagarelar...a menina nao está interessada em ouvir velhos como nós! Minha querida, vou-lhe apresentar o membro de mais recente aquisiçao desta família, e que, com certeza, lhe irá agradar mais...
Eleanor ausentou-se por minutos, deixando Helene pensativa. Quem seria? Nao lhe dissera Robert que Angel estava fora? Enquanto aguardava pelo regresso de Eleanor e de alguém misterioso, nao deixava de se esforçar para se lembrar de algo da sua infancia que a lembrasse deste casal tao afectuoso.
Helene saiu apressadamente pela porta das traseiras, empurrou o portao, e correu pela estrada. Já perto de sua casa, parou e interrogou-se porque tinha ido a correr até ali. Talvez fosse a pressao, pois nao queria ser descoberta pela patroa tao cedo. Mas, de repente, levantou-se uma ventania, interrompendo-lhe os pensamentos e levando o seu chapéu para longe. Helene recompos-se e desatou a correr novamente, atrás do chapéu. Nao podia deixar que o vento o levasse, pois era um dos seus preferidos, já que pertencera à mae. Correu até as pernas lhe doerem, pois nao estava habituada ao exercício e, finalmente, o vento permitiu ao chapéu pousar no chao. Helene aproximava-se dele rapidamente quando, por acidente, chocou com alguém que passava.
-Ai! Peço imensa desculpa...!
-Menina, tem de prestar mais atençao por onde anda!
-Peço imensa desculpa..ia distraída. O meu chapéu voou...!
O velho pegou no chapéu, sujo de poeira, e sacudiu-o.
-Aqui tem, menina.
-Muito obrigado.
-Sabe, voce nao me é estranha...Já, porventura, nos encontrámos?
-Penso que nao senhor. Mas os meus pais viviam cá, antes de...falecerem.
-Seus pais? E qual é o seu nome, minha menina?
-Helene Rose Fiori DeLover, senhor.
-Céus! Voce é a filha do Antoine? Bem me parecia que conhecia a sua expressao... Ah! como eu conhecia bem os seus pais...foi um fim triste, o deles! Tao boas pessoas...
-Mas...nao se sabe o que se passou com eles! Voce sabe?!
-Oh! Nao, minha menina, eu nao sei...mas desconfio, sabe? Aquele maldito Cole! E um traudor...eles tiveram uma zanga, algum tempo antes de eles irem e...desaparecerem.
-Oh, sim...nao me diz nada que eu nao saiba, meu caro. Sei bem quem é Charles Cole, e agora sei bem que é um bandido...Aliás, conheço-o melhor do que desejaria. Trabalho para ele!
-Trabalha para ele?! Mas isso é um ultraje! Ele deveria servi-la de corpo e alma depois do que fez!
-Sei bem disso, mas sou preceptora da filha deles...criança infeliz, sabe? Ambas elas sofrem uma carencia... Mas nao deveria estar a fazer-lhe confidencias destas! isto nem parece meu...Nao o conheço, como sei que diz a verdade?
-Observe os meus olhos, menina DeLover, e lá verá nada mais que a pura verdade... Parece cansada! Nao deseja uma bebida? Venha comigo, desejaria falar melhor consigo.
E Helene, como que automáticamente, seguiu o velho, pois alguma coisa nele lhe dizia que era de confiança.
Caminhou pela estrada até chegar à casa Cole. Aí, espreitou pela sebe verde e empurrou o portao. Entrou sorrateiramente pelo quintal, escondida pelos arbustos e chegou à porta das traseiras. Lá, encontrou quem queria.
Janet era a cozinheira dos Cole. Depois da morte dos seus pais, tinha-lhes sido entregue, para que a sustentassem. Negra, alta e magra, era uma pessoa simpática, divertida e extrovertida. Sempre bem-disposta, também sabia dar uma boa resposta, mesmo que isso nao lhe agradasse, por vezes. Tinha aproximadamente a idade de Helene e era a quem esta confidenciava quase tudo, contando sempre com ela.
Caminhou pela cozinha e aproximou-se, pregando um susto a Janet.
-Ah!! Ai, és só tu Helene! Pregaste-me um grande susto...
-Humm...cheira bem! O que estás a cozinhar desta vez?
-Nao me fales dos cozinhados! A patroa está furiosa...só barafusta! Onde te meteste a manha toda?
-Nao me perguntes onde me meti...pergunta antes o que descobri!
E Helene contou a Janet tudo o que descobrira na noite anterior.
-Nao acedito...estás novamente a fazer pouco de mim, com a tua imaginaçao fértil! Diz-me a verdade!
-Desejava que fosse tudo mentira, Janet, mas a triste verdade é essa. Trairam-me e à minha família, e é por isso que nao tenho coragem para os enfrentar tao depressa!
-E Anne Mary, Helene? Já pensaste na pobre Anne Mary? O que será dela sem ti? Ela nao tem culpa, apercebes-te disso Helene?
-Claro que sim, mas preciso de fazer isto por mim, e nao por ela...tenho pena de a abandonar, mas penso que uns dias sem mim lhe farao bem. Pobrezita, nem sabe que classe de pais tem!
-Helene, nao te quero apressar, mas acho que a patroa se aproxima! Rápido, sai!
E, aos tropeçoes, causados pela presa, Helene dirigiu-se à porta das traseiras.
Helene não conseguiu permanecer na mansão Cole durante muito mais tempo. Pegou nos seus pertences e saiu porta fora, sem se despedir. Caminhou sem saber para onde durante um bocado, e depois apercebeu-se onde estava. Inconscientemente caminhou até à sua antiga casa, a casa onde não se lembrava de ter vivido, mas que sabia ter outrora pertencido aos seus pais. Agora abandonada, a mansão DeLover tinha um aspecto majestoso, embora fantasmagórico. As ervas daninhas cresciam espontaneamente no espaço que outrora tinha sido o relvado. As rosas, que já tinha sido símbolo de riqueza, eram agora um emanharado de espinhos, sem cor nem forma definida. As sombras formavam danças nas paredes sujas e o portão com as inicias "DL" estava ferrugento e a desfazer-se.
Deu por si a entrar pelo portão destrancado, e assim que o fez um gato negro saltou do meio das ervas. Helene dirigiu-se à velha porta de carvalho, barricada com ripas de madeira. Encontrou um pedaço de ferro ali abandonado e bateu nas ripas até cederem. E com um empurrão, o outrora sólido pedaço de madeira abriu-se com um estalido, deixando escapar um cheiro a mofo. Caminhou pela entrada iluminada pela luz da lua cheia. O soalho rangia à medida que ela caminhava, mas nada diso a assustava. Andava receosa mas determinada e começou a entrar nas salas da casa, completamente abandonadas e cheias de teias de aranha. Várias peças de mobília estavam espalhadas por todo o lado, mas apenas mobílias demasiado pesadas para serem levadas, pois tudo o que era possível carregar tinha desaparecido, provavelmente sido roubado. Nada daquele andar lhe era familiar, até que decidiu subir as escadas. Vários degraus rangeram e partiram à medida que ela subia, mas finalmente alcançou o topo da escadaria. Entrou então noutro quarto, e lá dentro sentiu-se só e triste. Não percebeu porque até encontrar no chão uma boneca de porcelana. A boneca tinha caracóis castanhos e a cara partida e pálida. O único olho que possuia era penetrantemente azul. Helene rapidamente a reconheceu como sendo a sua boneca preferida de quando era muito pequena. Afagou os cabelos castanhos e olhou em volta. Cortinas despedaçadas pendiam do varão da janela. A madeira que forrava as paredes tinha apodrecido quase na sua totalidade, devido à humidade. Helene sentou-se a um canto do quarto, com a boneca na mão, e rompeu num pranto até que finalmente adormeceu ali mesmo, apenas acordando na manhã seguinte.
Nessa manhã, Helene não se sentia capaz de sair de casa. Sozinha no quarto da sua modesta casa, Helene reflectia sobre acontecimentos recentes. Deitada na sua cama, remoía a forma cruel como Charles Cole tinha arruinado a sua família. Com certeza que Maryanne sabia do que se passara, pois tinha reagido bruscamente à sua presença na biblioteca. Odiava agora o casal Cole de todas as maneiras possíveis, mas não conseguia odiar as filhas nem tinha coragem para se demitir daquele lugar. O que faria Anne Mary sem ela? Arranjar-lhe-iam uma preceptora cruel e imensamente severa como Mrs.Tellorman? Não, não poderia considerar essa hipótese. Anne Mary não sabia de nada, nem tinha culpa do que acontecera anteriormente. Para além disso, já estavam demasiado habituadas uma à outra.
Helene ansiava desesperadamente por encontrar algo com que se distrair. Pegou num livro e leu até lhe doer a vista. Aí, largou o livro, vestiu-se e abandonou a casa.
Sempre foi dito a Helene que os pais tinham morrido de doença, por coincidência ao mesmo tempo. Como era um assunto que incomodava Helene, esta nunca o explorou a fundo. Também nunca foi apresentado a promenor o que faziam os pais, nem porque tinham eles falido e entrado em decadência financeira. Mas o que encontrou naquela noite esclareceu muitos anos de ignorância.
Ao entrar na sala, Helene sentiu uma brisa gelada, que a fez sentir uma intrusa. Por momentos pensou retroceder, mas continuou pois a sala exercia sobre ela uma atracção inexplicável. Quando entrou por completo, não via nada, e acendeu uma vela que estava próxima. Aí, ficou claro para ela que não era um escritório, mas uma biblioteca com uma secretária. Helene adorava a leitura. Passou os dedos sobre as lombadas empoiradas e leu os títulos. Procedeu sempre da mesma maneira até à última prateleira. Lá, verificou que esta não continha livros, mas pastas. Abriu algumas e apercebeu-se que eram papéis de negócios de Mr.Cole. Mas houve uma que lhe chamou a atenção: uma pequena e insignificante paste, de cabedal negro. Abriu-a e reconheceu, com espanto, o nome de Antoine DeLover. ELa desconhecia qualquer relação entre o seu pai e Charles Cole. O que leu em seguida deixou-a gelada.
Charles Cole e Antoine DeLover tinham sido parceiros de negócios ainda novos. No entanto, uma zanga entre ambos separou-os e cada um seguiu o seu próprio negócio. O negócio de Antoine foi bastante mais próspero que o de Charles Cole, o que levou à inveja extrema do primeiro, pois ao contrário de Antoine, Mr.Cole era extremamente competitivo. Logo, Cole engendrou um plano de vingança contra Antoine, plano este que resultou, deixando Antoine DeLover e a família sem negócio, obrigando-os vender todos os seus perteces.
A Helene apenas foi permitido conhecer estes detalhes, pois quando lia uma nota no canto inferior de uma página, "DeLover e Cristina partiram em viagem para Roma", a porta da sala abriu-se, revelando uma irada Maryanne Cole, que reconheceu de imediato o que Helene lia.
-O que julga que faz aqui, menina DeLover?!
-Eu estava apenas a ver... não era minha intenção ler documentos privados de seu marido. Perdoe-me senhora...
-O que a levou a ler esses documentos? Deveria saber que não devia entrar em salas fechadas. Não é da sua conta o que está aqui guardado, menina! Daqui para a frente, limite-se a educar Anne Mary, pois tudo o resto não lhe diz respeito. E já que estamos a falar da educação de minha filha, devo dizer que não me agrada que a leve para fora de casa. Daqui em diante, vai resumir-se a dar-lhe as lições e ocupá-la durante a tarde, e qualquer saída para fora dos portões desta casa será punida severamente. O mesmo se aplica a Charlotte.
-Sim, senhora, mas achei que faria bem a Anne, pois....
-Não é paga para achar nada, menina DeLover. E por favor, trate-a por Anne Mary, pois apenas os mais próximos a ela têm esse direito. não tem permissão para a tratar por diminutivos.
-Sim, senhora.
Helene abandonou a biblioteca mortificada, decidida a nunca mais facilitar a vida aos Cole, já que tinhm sido os responsáveis pela falência dos seus pais. Apenas Anne Mary teria o direito de conviver com ela, assim como Charlotte. Embora adorasse a pequena, não passaria mais horas naquela casa de traidores mais tempo do que aquele que lhe era solicitado.
Uma noite, Mrs. Cole anunciou que iria dar um baile, para o qual Helene também estaria convidada.
Helene trajou o seu melhor vestido de baile, preto e bordado a vermelho e dourado. Helene tinha uma vida modesta. Habitava a antiga casa da tia, tendo-lhe sido dada por testamento, aquando a morte da tia. Não gastava o seu salário como perceptora em vestidos, mas aquele pertencera à sua mãe, e tinha para ela um valor sentimental incalculável.
Helene ficou em casa dos Cole até que começasse o baile. Um tempo antes do tempo previsto para o início do baile, fechou-se num quarto vazio e preparou-se. Helene não tinha como hábito admirar-se ao espelho, mas naquele dia estava absolutamente deslumbrante, como teve de admitir a si própria. Embora possuisse beleza e grandes qualidades, Helene nunca tinha tido nenhuma relação séria, desistindo de todas as que já tivera, devido a uma necessidade que não era satisfeita.
Tinha como função naquela noite preparar Anne Mary. Vestiu-a com um vestido branco folhado e apanhou-lhe o cabelo dourado de cada lado. Anne Mary não apreciava estas festas, por isso Helene decidiu ficar perto dela durante toda a noite. Sabia que não seria paga, pois embora lhe tivesse dado emprego, Mrs. Cole não a apreciava, tratando-a por vezes com desrespeito. Mas não iria permitir que a menina ficasse sozinha. Ao contrário da irmã, Charlotte divertia-se imeno com estas festividades, passeando com um sorriso malévolo por entre a multidão. Adorava vê-la afastar à sua chegada, pois gostava de saber que provocava aquele sentimento de receio nas pessoas.
Por volta das 10h, após o jantar, Anne sentiu-se ensonada e chamou por Helene. Esta levou-a para o quarto, deitando-a e aconchegando-a.
Sem Anne por perto, Helene não sabia o que fazer e decidiu explorar a casa. Embora já ali trabalhasse há dois anos, nunca se tinha atrevido a entrar em metade dos compartimentos que constituíam a casa. Após entrar em vários quartos, houve um que lhe chamou a atenção. Era no segundo piso, e pensou ser um escritório. Mr. Cole usava agora um outro escritório, no lado oposto da casa, portanto ela sentiu-se à vontade para o explorar. Nunca esperou encontrar o que encontrou.
Anne Mary possuia uma beleza incomparável, embora pequena. Tinha longos caracóis dourados e grandes olhos castanhos cintilantes. Tinha a pele branca, embora não demais e faces coradas, e era muito gorducha, sendo totalmente parecida com a mãe. Ao contrário da irmã, embora bonita, Charlotte possuia longos cabelos negros e olhos escuros, mesmo pretos. Tinha a face branca, quase transparente e era muito magra, o que a irritava, pois costumavam dizer que ela era quase invisível. Charlotte invejava bastante a irmã, pois todos que a viam, "enamoravam-se" pela criança quase de imediato. Embora inconscientemente, todos temiam e evitavam Charlotte, mesmo sendo uma criança.
Helene era bastante parecida com Charlotte. Longos cabelos lisos e negros, olhos igualmente negros e expressão pálida, embora muito mais sociável que a primeira. Muitas pessoas que as viam juntas julgavam-nas irmãs, o que irritava profundamente Charlotte. Para ela, a sua única irmã era Anne Mary, a única pessoa de quem ela gostava no mundo.
Anne Mary adorava a sua perceptora, Helene. Ela era, para além de Charlotte, a sua única amiga. Anne era uma menina tímida e muito introvertida, mas que, como todas as crianças, gostava de se divertir e brincar. Com Charlotte ela brincava a tudo, mas Helene ensinava-lhe muitas coisas, pois embora tímida, Anne era muito curiosa inteligente. Os seus pais não lhe davam muita atenção pois passavam os dias em festas e a tratar das suas próprias vidas. Mr. Charles Cole era também, como Antoine DeLover, um comerciante de perfumes, especiarias e sedas, e tinha um importante negócio na Índia. Mrs. Maryanne Cole adorava festividades, e tudo o que ela considerasse à sua altura, teria a sua participação. Organizava também, frequentemente, festejos em sua casa, e não era necessário um motivo em especial para o fazer. Logo, Anne Mary nunca conviveu muito com os seus pais e contava apenas com a sua irmã e com a sua perceptora.
Helene adorava também a sua aluna, e fazia-lhe todas as vontades. Embora severa quando necessário, Helene apreciava bastante ver Anne Mary feliz. Passavam as manhãs a estudar e as tardes a passear. Helene via nos passeios com Anne uma forma de ela ultrapassar a timidez, e levava-a muitas vezes para longe do grande casarão dos Cole, e levava por vezes Charlotte.
Charlotte tinha também uma perceptora, uma velha senhora, de nome Wendy Tellorman. Esta tinha uma personalidade severa e rígida, e tinha sido escolhida para perceptora de Charlotte por estas qualidades. A rapariga era muito rebelde e individualista, e os pais tentaram remediar esta situação ao contratarem Mrs.Tellorman. No entanto, este plano apenas serviu para reprimir a raiva de Charlotte. À primeira vista, esta era uma rapariga simpática, mas a sua personalidade não tinha desaparecido, como acontecia às suas bonecas. Apenas Helene sabia que Charlotte, nos seus momentos piores, se refugiava no quarto e arrancava todos os membros possíveis às suas bonecas, e que mais tarde as enterrava no seu canto do jardim.
Wendy Tellorman não melhorava esta situação, repreendendo Charlotte pelos meios físicos, sendo por vezes demasiado dura por uma ninharia. Assim, Charlotte odiava a sua perceptora e embora não apreciasse inteiramente Helene, preferia passar todo o tempo disponível com a perceptora da irmã e Anne do que passá-lo com Mrs. Tellorman.
Filha de mãe italiana e pai francês, Helene Rose Fiori DeLover nasceu em Inglaterra. Seu pai, Antoine DeLover, era um rico homem de negócios que, depois de casar com a sua mulher, Cristina Fiori, abandonou a França e estableceu o seu negócio em Inglaterra. Foi lá que naceu Helene, numa sumptuosa mansão obtida com a prosperidade crescente de Antoine. Até que um dia, pouco tempo depois do nascimento de Helene, a desgraça abateu-se sobre a família DeLover, levando todos os seus pertences, devido a uma enorme dívida de Antoine. Pouco tempo depois, Cristina e Antoine partiam numa viagem, deixando a pequena Helene entregue a uma tia próxima. Mas uma enorme tragédia levou os pais da pequena, deixando-a sozinha com a sua tia Maria Fiori. Nunca ninguém soube o que aconteceu exactamente aos pais de Helene DeLover. Helene foi criada pela tia, até que esta faleceu, deixando-a sozinha no mundo.
Helene era uma jovem trabalhadora, que depressa achou um caminho. Arranjou um emprego como preceptora de uma menina, Anne Mary Cole, pertencente a ricas famílias. Helene acompanhava Anne desde os seus 5 anos de idade.
Filha de Charles e Maryanne Cole, Anne Mary tinha ainda uma irmã mais velha, Charlotte, de 13 anos.
|| Leonardo
|| Janet
|| A Descoberta
|| O Baile
|| Maio 2007
|| Abril 2007